segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A Resistência, a Cultura e os Boys: Assinalando a Morte de Alfredo Tinoco


Morreu ontem mais um dos nossos Confrades. Neste caso, também político que vinha de «antes de Abril», do tempo da resistência.
Contudo, foi na condição de homem de Cultura e Ciência que se cruzou com a Confraria do Pão, acompanhado de André Michele, de origem francesa e radicado no Canadá há décadas, onde desenvolve meritório e reconhecido trabalho com os Almeríndios.
Entusiasmou-se com o que viu e viveu nessa distante tarde de Primavera de 2001 e, do alto da sua vivência universal e universalista, com a autoridade do cargo que então ocupava (Presidente do MINOM, Movimento Internacional da Nova Museologia), assinalou as potencialidades que reconhecia ao nosso Projecto para se implantar como Museu Vivo.
No ano seguinte, já Confrade, ajudou-nos a erguer o I Congresso Português de Cultura Mediterrânica, cuja Comissão Científica integrou, e no qual proferiu importante conferência, de que destacamos:

«Se olharmos à nossa volta, veremos uma seara em crescimento. Perto dela uma eira lageada, mais além o lançamento do que há-de ser um moinho de vento, do outro lado uma azenha que a força das águas há-de mover, aqui cerca de nós o forno onde se coze o pão. Neste microcosmo que é a Confraria do Pão, estão, em torno desse mesmo pão, para que a semente se transmute no pão dos homens, congregados os elementos do universo todo: terra, água, ar e fogo. Sem isto, não há pão. Sem eles não há vida.
É em torno disto e com isto que a Confraria pode e quer construir o Museu Vivo do Pão.
Antes de mais, saber da terra, cuidar dela.... O homem sempre precisou da terra e vamos precisar dela cada vez mais. Também para essa educação há-de servir o museu.
Depois, mostrar ao vivo todo o ciclo do trigo. …E há lá coisa nenhuma mais bonita e mais prenhe de futuro que o gesto largo e preciso do semeador que fecunda a terra … Este ciclo do trigo coincide, não por acaso – são ciclos de vida – com o ciclo escolar. Porque não hão-de as escolas galgar as paredes da sala de aula e vir ao Museu Vivo… podem aprender vendo e fazendo, receber uma “lição das coisas”, aprendem a amar e a valorizar a terra e aprenderem a justa dimensão do valor humano do trabalho que as quatro paredes da escola não permitem aprender. ..
Não me admira que muitos não saibam hoje o que é a entrosga de um moinho ou que não diferenciem os vários sistemas de moagem verticais e horizontais em uso nos moinhos movidos a água. O que já me causa mais admiração é que já vá havendo crianças que não saibam qual é a origem do pão que, afinal, comem todos os dias.
… Há, finalmente, que meter as mãos na massa. Há que perceber como se doseiam a farinha, a água, o sal e os fermentos para que possamos ter um pão saboroso, agradável e nutritivo, ou seja, saudável. Há que conhecer as alfaias necessárias, há que dar forma ao pão, deixá-lo fermentar o tempo exacto.
Há também que preparar o forno. Conhecer as técnicas e os processos bem como as diversas tipologias de fornos, suas vantagens e inconvenientes. Determinar a temperatura e os tempos de cozedura correctos. Também disso depende a boa qualidade do pão. Também isso é necessário aprender. E, depois, saborear o pão. Todos estes saberes cumpre ao Museu do Pão conservá-los e transmiti-los.
E quando falo aqui de saberes, na perspectiva do Museu Vivo, refiro-me evidentemente, aos saberes científicos e técnicos que temos de guardar e actualizar no Centro de Documentação, mas também aos saberes empíricos, aos saberes práticos, aos saberes-fazer …Tarefa do museu, para além de conservar os objectos, é também conservar os saberes que lhe estão associados, pô-los em colóquio, confrontá-los, disponibilizá-los a quem os quer entender.
…
Quem aqui esteve por ocasião da última ceifa pôde percebê-lo e experimentá-lo. O mesmo se diga do que aconteceu por ocasião da sementeira desta seara que aí está à espera de ser pão. Foi ver jovens e menos jovens aprendendo com quem detém os saberes a abrir os regos na terra e a lançar as sementes.
… É isto que se tem proposto fazer a Confraria do Pão. É, afinal, isto que temos estado aqui a fazer nestes dias de trabalhos do I Congresso da Cultura Mediterrânica – ajudar a constituir a colecção sistémica do “Museu Vivo” que neste caso teve por temas a Terra, o Homem, o Pão neste ecossistema que é o Alentejo que se enquadra e interage com e num sistema mais vasto que é o mundo mediterrânico.
É claro que este é um caminho penoso, é um método difícil, mas pleno de potencialidades.
Trata-se de divulgar e de fazer reconhecer a dignidade e as expressões e os saberes de todas as camadas da população.
Um museu nunca está acabado, está sempre em devir.
Bem hajam todos os que têm contribuído para a construção do Museu Vivo – Confraria do Pão! Bem hajam.»


A Presidência da então CCRA, ora CCDRA (Filipe Palma, actual Presidente da Câmara de Ourique, e Bento Rosado, desde há anos Presidente da Gestalqueva - Sociedade de Aproveitamento das Potencialidades das Albufeiras de Alqueva e de Pedrogão, S.A.), a quando do pagamento do já (muito) amputado apoio que concedeu ao Congresso, resolveu discriminar o recibo de despesas do Professor Alfredo Tinoco, rigorosamente idêntico aos dos demais membros da Comissão Científica, devolvendo-o por «irregularidades».
Julgámos, então, que se tratava de mera provocação à Confraria.
No momento em que o corpo do nosso Confrade repousa no «Museu da Resistência», a Benfica, aguardando a sua Cremação, amanhã, dia 17, às 13 horas, no Cemitério dos Olivais, enquanto os referidos governantes e os seus executores se banham nas praias, eventualmente dos ofshores das Caraíbas, deixamos esta homenagem ao Alfredo/Professor Tinoco: provavelmente, os «boys» e os seus mandantes, quiseram com o seu ignóbil acto (já motivo de crítica judicial condenatória) também atentar contra a dignidade com que defendeste Abril; antes e depois. O mesmo Abril de que eles se serviram para enriquecer; começando cedo, nos campos e campinhos do Alentejo. Os mesmos campos que viram jorrar o sangue das entranhas de Catarina Eufémia, donde deveria ter brotado o fruto do amor de dois jovens construtores da esperança. A mesma esperança que, companheiro, ajudaste a florir, também na Confraria. Bem hajas!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Toca a reunir!


Comentário à prisão de Pedrag Matvejevic

Fez no último Abril oito anos que, em sua casa nos arredores de Roma, conheci Pedrag Matvejevitć, esse vulto maior da Cultura Mediterrânica.
Acompanhado de minha filha, então com doze anos, levávamos a grata missão de lhe testemunhar quanto o Congresso de Cultura Mediterrânica, em geral, e a Confraria do Pão, em particular, rejubilaram com os textos que escrevera e enviara, impossibilitado que esteve de se deslocar ao Alentejo, onde o mesmo decorreu.
Não nos fizéramos anunciar. Fomos recebidos por sua encantadora companheira, a qual, depois de perceber ao que íamos, nos introduziu na sala onde o Professor repousava.
Pedrag, então Professor na Universidade La Sapienza de Roma, leccionara na Sorbone em Paris, pelo que o nosso diálogo decorreu em Francês, facilitado por uma expressão facial que, só por si, permitia um entendimento profundo.
A alegria e o entusiasmo foram arrebatadores. Tanto que logo ali ficou combinada a sua vinda para a apresentação das Actas do Congresso, seis meses depois. Entronizámo-lo a preceito e partimos com a convicção de que acabáramos de comprovar a universalidade de que suspeitáramos ao ler o seu «Breviário do Mediterrâneo».
Aquando da sua vinda, em Novembro de 2002, na Confraria, primeiro, e depois em Évora onde proferiu uma importante Conferência, finalmente em Lisboa nas entrevistas ao Carlos Marques (TSF) e à Lumena Raposo (DN), constatámos a nobreza do seu carácter, a sagacidade com que analisava o viver, a simplicidade com que expunha as suas ideias redentoras, absolutamente redentoras, da contemporaneidade, e a frontalidade que chamava a si na denúncia dos fundamentalismos de todas as cores e matizes. Em suma, um indispensável construtor do futuro multicultural, «um importante apoiante do conceito europeu, um homem que sempre tem buscado amplos e infinitos horizontes dos mares e costas que produzissem terras sem fronteiras, barricadas ou fortalezas.»É esse Homem que a justiça croata persegue desde 2005 e quer agora prender, por na sua terra ter chamado os bois pelos nomes a alguns fundamentalistas, não podendo deixar de denunciar a responsabilidade da intelligentsia nacionalista, aqueles que agitaram o ódio étnico e promoveram “guerras patrióticas” na ex-Jugoslávia, ideólogos vira-casacas. Deu-lhes o título que achou o mais apropriado: “Nossos Talibãs”. E um destes processou então Predrag Matvejević, que se viu condenado, “por injúria e difamação”, a uma pena de prisão efectiva.
Homem profundamente íntegro e vertical, Predrag declarou já a sua intenção de acatar a decisão dos tribunais e, irmanando-se com outros intelectuais perseguidos pelos ideais que defendem, cumprir a sentença de prisão – repto último ao próprio conceito de Europa!
(http://www.giardini.sm/matvejevic/prigione.htm)
Curiosa é a posição de indiferença da UE de que a Croácia quer vir a ser o 28º Estado, quiçá por este pensador do Mediterrâneo, da Europa e do Mundo ter afirmado que «não tenho grande consideração por aqueles que colocam o partidarismo acima dos princípios, a nacionalidade acima da humanidade.»
Vai nu o rei que permite prender intelectuais humanistas da estirpe de Pedrag, em vez de reduzir à sua expressão criminosa os fautores da ideologia fascista e nacional-fascista que estão por detrás desta ignóbil cabala.
Deste canto do Mediterrâneo, que reivindicamos universal e fraterno, aqui vai a expressão da nossa nossa profunda solidariedade e o nosso fraterno apoio à causa de Pedrag Matvejevitc.
Por enquanto, como escreveu, “Os verdadeiros vencedores, aqueles que sabem defender valores, a maior parte das vezes perdem as suas batalhas.”
Mas, garantimos, nunca perderão a Guerra. Toca a reunir!

sábado, 12 de junho de 2010

O Aniversário do Ti Limpas, uma Festa verdadeira!



O Ti Limpas tem sido um dos maiores obreiros da Confraria do Pão. Por este pobre País que esbanja milhões com tubarões de que só se conhece o dom da hipocrisia e da luxúria, já fez mais, muito mais, que todos eles juntos.
De borla, com sacrifício da saúde que lhe mingua mas sempre com alegria e prazer, sem se revoltar por receber de reforma menos que a milionésima parte do que recebe, por exemplo, o administrador da PT de quem só se conhece – e bem, ao menos aqui na região! – o engenho para «democraticamente» destruir empresas e lançar operários e demais trabalhadores no desespero.

Fez ontem 81 anos. Aproveitámos a disponibilidade do Grupo Coral Feminino de Viana do Alentejo, do Coimbra e de mais um punhado de Confrades entre os quais o Zé Rabaça, que veio de Corroios, e fizemos-lhe a surpresa de, com cante e poesia, à sua porta, aliviarmos a imensa dívida que sentimos ter para consigo.
A Nicolina e a Francisca prepararam a sopa que o Coimbra nos serviu e ao Coral de Viana, antes de rumarmos a Capelins. O Borda D’Água acrescentou queijos, vinho e muita (e boa) fruta, com a solidariedade que empresta aos seus actos de respeito pelas suas humildes origens.
A Dª Virgínia, de Vila Viçosa, e a Dª Josefa, de Capelins, fizeram os Bolos que acrescentámos ao da Ti Chica. O vinho (do Porto), vá lá saber-se como, foi oferecido, em sua memória, por um amigo de Emílio Peres e pela Minez Madureira, este enviado de Praga com dois beijinhos, pra ele e sua mulher.
O Bernardo, neto do Godinho, ajudou-nos a tender o pão que lhe ofereceu em nosso nome. E houve mais prendas, muitas prendas, para além das mensagens especiais de alguns confrades: do Tó, de Coimbra, da Maria Daniel e do Luís Paulo, do Porto, do Constantino, também de Coimbra, da Isabel, de Lisboa, do João Paulo, de Évora, do Mohamed, de Marrocos, do Feliciano, de Viana do Alentejo… E do seu neto, que reside em Lisboa, a quem possibilitámos um telefonema «especial».

Foi bonita, muito bonita, a Festa, como dizia uma suA vizinha, emocionada.
E simples, muito simples, tanto quanto a nobreza do carácter do homenageado que, ao ouvir as décimas que o Coimbra lhe fez, deixou correr uma lágrima…

Desta feita, também o João e o Godinho se disfarçaram de poetas. E ditaram, em nome de todos os Confrades e com alguns deles no coração:
JÁ ELE ERA PROFESSOR
QUANDO ENTRÁMOS PARA A ESCOLA
AGORA JÁ É DOUTOR
‘INDA ANDAMOS DE SACOLA
1.
‘Inda Abril florescia,
Já meio ferido por Novembro,
Um dia frio, em Dezembro,
Com muito de valentia
E outro tanto de alegria,
Lá partimos, com ardor,
Procurando, com rigor,
Os obreiros da Cultura.
Registe-se que, na altura,
JÁ ELE ERA PROFESSOR
2.
Na roda da nossa vida
Tudo pode acontecer…
E foi assim que, sem querer,
A uma ideia perdida
Com uma vida vivida
Entre o tractor e a sachola
Deixámo-lo na gaiola
E da grande reunião,
Excluímo-lo por omissão,
QUANDO ENTRÁMOS PARA A ESCOLA
3.
Mas o tempo se encarregou
De um dia nos redimir.
Então podemos ouvir
Uma lição que ecoou
Por Portugal e mostrou
Ti Limpas, com esplendor,
Combinando com amor
O saber e a razão.
Na Confraria do Pão
AGORA JÁ É DOUTOR
4.
Isto do conhecimento
Tem muito que se lhe diga,
É parecido com ‘ma briga
Que nos varre o pensamento,
Sempre e em todo o momento,
Não dando descanso à tola.
Pra ele só uma bitola
O pode satisfazer:
Aceitar que até morrer
‘INDA ANDAMOS DE SACOLA

O Cante, a Poesia, do Coimbra e do Ti Limpas, as palavras e os silêncios, tudo, com tanto de simplicidade como de fraternidade…
Pois foi, foi bonita a Festa, está a Cultura de parabéns.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Na Feira do Campo, em Aljustrel, a 11.06.10



Levámos Pão que demos a provar a quem quis connosco partilhar a caminhada destes milhares de anos em que ele tem sido «o incansável mitigador da Fome», «o inseparável companheiro do Homem».

Também levámos «o outro pão», que nos enriquece o Viver, que nos «alimenta a alma», a Cultura.

Distribuímos informação sobre «As vantagens do Pão Tradicional para a Saúde» e sobre «A Caminhada»; do Pão, claro. Deixámos uma centena de exemplares dum folheto com cinco décimas. E oferecemos o livro das «Actas do Congresso da Cultura Mediterrânica» para a Biblioteca Municipal.

Sobretudo, transportámos nos nossos corações e memória o que nos tem sido possível aprender com «os construtores do Saber». Alguns doutores, como Emílio Peres, outros com pouca instrução mas também cultos…

Procurámos ser sóbrios na postura e simples no verbo, sem perder o rigor.

Assinalámos que o Pão Tradicional é promotor da Saúde e que os outros feitos com farinhas corrigidas ou massas congeladas, a exemplo de baguetes, tostas, bolachas, cerais e outros que tais, são na generalidade alimentos perigosos que contribuem para as doenças do mundo moderno, à cabeça das quais a obesidade.

Lembrámos os tempos da Fome que volta a espreitar os campos de Portugal.
(…)
Tenho esta recordação
Do tempo do Estado Novo,
A maior parte do Povo
Tinha esta alimentação.
Pouco mais davam que o pão,
E tinha que ser aceite,
Por não haver quem respeite
O esforço violento
Só nos davam de alimento
UMA AÇORDA SEM AZEITE

Como denúncia de quem quer contribuir, como pode, para que ao Alentejo e ao País não volte a indecência da desumana exploração do homem pelo seu irmão.

E deixámos uma mensagem de esperança, aquela que dá razão ao nosso Viver:
(…)
Do infeliz me despeço,
Sobre o que ouvi me confundo
Há tantos outros no mundo
Que são generosos, confesso,
Labutando p’lo progresso
Em tanta transformação
E que dia após dia vão
Sempre praticando o bem
Pra que não diga ninguém
EU TENHO FOME E TU NÃO!

Tempo, ainda, para assinalar o nosso carinho por «irmãos de caminhada» da envergadura do Sérgio Godinho, a quem ofertámos um Pão de 3 Kgs.
Quem nos ouviu e connosco conviveu mostrou respeito pelo Pão. E pela Confraria. Até fomos entrevistados pela Rádio Voz da Planície e pela Rádio Pax. Em directo e sem censura, como agora já voltou a ser moda…

Tudo isto na véspera do 81º aniversário do Ti Limpas que amanhã vamos festejar com o Cante do Grupo Coral Feminino de Viana do Alentejo, com as décimas do Coimbra e com o Pão da Confraria que havemos de fazer para lhe levar e com ele recordar:
Na roda da nossa vida
Tudo pode acontecer
Mas o verdadeiro saber
Da Felicidade perdida
É uma jóia bem escondida
Pelo Povo com tradição
Que na sua alimentação
Conserva a simplicidade
De gritar em liberdade:
BEBA VINHO E COMA PÃO!

sábado, 5 de junho de 2010

A Confraria do Pão em Aljustrel, na Feira do Campo


No próximo dia 11, sexta-feira, a partir das 16h30m, no «Espaço Pão» da Feira do Campo, em Aljustrel, para além de um debate em que procuraremos demonstrar as vantagens para a Saúde, do Pão Tradicional, animado pelo João Madureira, médico, distribuiremos documentação e levaremos Pão para dar a provar aos visitantes.
Aliás, a Confraria do Pão participa neste evento para, como faz há mais dez anos, promover o Pão como cerne de um estilo alimentar e de vida, que urge preservar, assim como a cultura que se relaciona com esse estilo, desenvolvendo-a e harmonizando-a com os novos tempos.
A exemplo de Miguel Torga e tantos outros, reconhecemos na Cultura Popular, e na Alentejana em particular, importantes marcas do que de mais significativo a Humanidade vem produzindo ao longo da sua caminhada para … a Felicidade.
É também por isso que nos fazemos representar por mais três Confrades, legítimos representantes dessa Cultura:
- o João Godinho, artesão que o «desenvolvimento» atirou para o desemprego e é agora um dos responsáveis pelo Pão que a Confraria produz;
- o Ti Limpas, mais de oito décadas de idade e setenta anos de duro trabalho, Homem de profundo sentir e imenso Saber;
- e o Coimbra, Manuel João de seu nome, o qual na idade de ir «aprender a ler, a escrever e a rezar», que era tudo quanto era permitido na Escola do ditador Salazar, rumou pró trabalho. Descalço.

Ou seja, braço dado, Pão, Cultura e Ciência é quanto nos preparamos para partilhar com quem nos der a honra de nos visitar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A voz da razão ecoou no Pinhal Interior. Com emoção, rigor e sobriedade!



Organizado pela CM da Lousã e pelo Ecomuseu Serra da Lousã, decorreu na tarde da última sexta-feira, dia 14 de Maio, no Lagar Mirita Sales - completamente esgotado -, a Conferência Pão – Sustento, Fermento, Alimento.
Depois de quatro horas de viagem em transporte da autarquia, passámos pelo Lagar para reconhecer o espaço e colocar na mesa um Pão de 3Kgs, já com uma semana.
Seguiu-se o almoço no Restaurante «Casa Velha», em que, depois da indispensável «Sopa de Legumes», degustámos a tradicional «Chanfana». Com broa e vinho. Posto o que avançámos para a Conferência.
A mesa do nosso Painel, o primeiro, foi presidida pelo Dr. Hélder Bruno, vereador da Educação da CMLousã, sentando-se à sua esquerda o Padre António Calisto e um dos mais antigos padeiros da Lousã, mestre Pereira. À sua direita o Ti Limpas, o Coimbra e o João Madureira. Ao Godinho coube distribuir pelos presentes o folheto com as seis décimas populares que integravam a nossa Comunicação, de molde a facilitar o seu acompanhamento.
E lá começámos a função, convictos da extrema importância do que nos propúnhamos fazer. No centro dela o Pão como cerne de um estilo alimentar e de vida, que urge preservar, assim como a cultura que se relaciona com esse estilo, desenvolvendo-a e harmonizando-a com os novos tempos – o foco dos princípios e valores que norteiam a acção e postura da Confraria do Pão.
Feitas as saudações, coube ao Coimbra apresentar «os obreiros do Pão» com uma décima sua em que caracteriza a sua vida: Tanto eu tenho trabalhado/ Durante uma vida inteira/ Mas nada tenho arranjado/ Só dores e esta canseira…
Seguidamente passámos em revista «a construção da Cultura Alimentar do Homem», até ao «nascimento do Pão», concluindo com uma décima do Ti Limpas: O que é o Homem e o Pão/No meu resumo singelo/É o Homem que o produz/Por ter um sabor tão belo…
Por esta altura já a assistência se tinha rendido à simplicidade com que partilhávamos o conhecimento. Era o momento de deixar sublinhada a importância da Cultura. Socorremo-nos do mote do Salgueiro, de Montemor-o-Novo, e da glosa do Anastácio Pires, dos Orvalhos, ajudados pela memória do Ti Limpas: Sem Cultura e sem noção/ Não pode haver alegria/ A Cultura é como o Pão/ Faz falta no dia a dia…
E assim continuámos ao longo de 45 minutos, sentindo, orgulhosos e gratificados, que poderíamos continuar pela tarde fora que ninguém arredaria pé, terminando, depois de lembrar através do Coimbra Jaime da Manta Branca e os tempos da Fome que voltam ameaçar os humildes(Não vejo se não canalha/ De banquete pra banquete/ Quem produz e quem trabalha/ Come açordas sem azeite…), com a glosa do Ti Limpas ao mote Dá-me cá um bocadinho/ Tu que tens o Pão na mão/ Trabalho eu gozas tu/ Eu tenho fome e tu não…
Tudo interligado com informação científica actualizada e demonstrativa dos maus comeres e viveres de cidade, da necessidade de avaliar criticamente o que nos pretendem impingir como «ciência» e «inovação», da premência em vigiar a acção dos governantes impedindo-a de ser subordinada ao interesse económico.
Enfim, cumprimos, orgulhosos, a missão a que nos propuséramos, enriquecendo, com o imenso calor humano que nos dispensaram, o Pão que fazemos e partilhamos com Amor.
Seguiu-se o restante programa, interessante, complementar e elucidativo da justeza do nosso caminho.
De parabéns pode sentir-se, como nós, a Câmara Municipal da Lousã. Viva o Pão!

domingo, 9 de maio de 2010

Confraria do Pão (Alentejo) participa na Conferência “O PÃO – sustento – fermento – alimento”, na Lousã, dia 14 de Maio



Organizado pela Autarquia e pelo Ecomuseu Serra da Lousã, esta iniciativa decorrerá no Lagar Mirita Sales – Núcleo de Gastronomia e Doçaria da Serra da Lousã a partir das 14 horas.
Convidamos todos a juntarem-se a nós nesta ocasião – a participação é gratuita, e a inscrição pode ser feita online (em http://www.cm-lousa.pt/educacao/insc_conf_pao.php)
No centro da nossa participação estará o Pão como cerne de um estilo alimentar e de vida, que urge preservar, assim como a cultura que se relaciona com esse estilo, desenvolvendo-a e harmonizando-a com os novos tempos – o foco dos princípios e valores que norteiam a acção e postura da Confraria do Pão.
A delegação será composta pelo Confrade João Godinho, responsável pela representação oficial da Confraria e que levará algum material de informação e livros, e pelos Confrades João Madureira, Ti Limpas e Coimbra, que farão a «Conferência».
Será uma oportunidade para reflectir sobre o papel do Pão como sustento do Homem e da Vida, para compreender o que é o Pão tradicional e como ajuda a preservar a saúde e a felicidade, e para ouvir como a cultura popular alentejana o valoriza e defende – através das décimas do Ti Limpas e do Coimbra, poetas populares.
Lamentavelmente, não poderemos dar a partilhar o Pão que defendemos e fazemos, com carinho, paciência e saber ancestrais – o fabrico do Pão ficará a cargo dos formandos do curso técnico de Cozinha e pastelaria e que se integra no propósito pedagógico que a CM da Lousá pretende imprimir à ocasião.
Acima de tudo é uma ocasião para os Associados e Amigos da Confraria do Pão se (re)encontrarem e ajudarem a defender um bem que consideramos tão precioso nos dias – apressados, violentos e violentadores – que correm: O NOSSO PÃO tradicional, benfazejo, isento de toxinas, justo e solidário.